Um sonho, um fim
Poema sobre o dessabor da memória.
Senti um sonho próximo do onírico.
Aquele que encarna na memória,
o sabor do passado desce leve
como o primeiro beijo tão estranho,
ou quando o luto seco apodrece
sobre uma fruteira de uma avó,
que pálida foi tão rápida embora…
Senti um sonho bem amargo, desses
em que saliva sai regurgitando,
quando se vira adulto a dor devora,
não pelo dessabor acelerado,
é pela infinita morta hora
que sentimos o corpo fatigado.
Senti um sonho longe do sossego,
este em que o vento dói sem gosto,
a música das árvores da infância
convida minhas lágrimas a virem,
o portão ainda velho ruge feroz
eu, ser inconvidado, sou fantasma,
a alma rugiu há décadas num miasma:
minha felicidade me chamava…
A gente se adapta com o tempo
girando a ampulheta açucarada,
os grãos são semelhantes às amoras,
tateadas com carinho pela avó,
ela colhia os maduros, desprendia
os inúteis — eu ajudei sorrindo
hoje sou ajudado em terapia.
Entendi um pesadelo realista:
a língua paralisa, sono triste,
minha experiência é a mesma:
universal, comum, tão azeda.
A morte sempre desce acordada,
vai beijando com lábio familiar,
seca a vida no seu auge molhada
e se despede bem que lentamente…




https://youtu.be/21pspB4lckI?si=EiwdBq_QaZ3iL3SF